CONTO

LUANACIDA
LuaNaMorte

Algo me induz a escrever, mas pouco sei do que redigir.
Mas meu amor às letras unido ao amor pela noite (que agora chega em seu auge), e ainda unido aos grandes centros urbanos, faz sem duvida surgir a necessidade, de contar-vos, algo... mas a primeira pessoa cansada, pedi para ouvir poesias recitadas sobre o ser que sentou no asfalto naquela rua movimentada.

Pois é de tal necessidade que surgiu, uma moça, carregando consigo desejos de criar, e de acabar com toda criação divina sobre seu umbigo, afinal mais uma utópica urbana, sonhando em mudar a cena caótica da atualidade, porém carregando consigo um grande romance com a imagem do suicídio, talvez algo banal, pra muitos algo irracional, pra mim algo normal, mas pra ela algo essencial.
Afinal o suicídio era resposta, era o fingir do chegar da nova era, era a utopia vencida ou derrotada... mas pra sempre... era o ponto final da utopia, era mostrar a vizinhança que a utopia tinha um valor. A sua morte, e a morte de muitos jovens, que ela acreditava estar agora, se matando, não só com armas de fogo, facas, ou pontes, mas com drogas, afinal o suicídio lento é emocionante, é mais "vivenciado", é algo mais sado-masorquista, afinal com as drogas, os jovens agridem a sociedade e se agridem muito mais.
Mas ela ainda sonha na busca do suicídio veloz, é uma cena mais romântica, morrer com um tiro no ouvido, e uma carta de despedida.
Afinal ela já sabia que no dia que a depressão apertasse, a arma seria o revolver do seu pai, e a carta de suicídio, na certa ela fazeria na hora, mas o que não faltava eram cartas, afinal ela já confeccionava cartas de todas outras vezes onde a depressão a aperreava mais forte.
Até em seus poemas, ela colecionava mortes e auto-destruição.
A morte sem duvida era seu grande amor platônico, afinal nunca um professor de educação física lhe fez suspirar, nunca um garoto da elite ou da TV lhe fez retorcer de dor.
Mas a questão do ser e do mundo lhe trazia toda dor possível, e toda solidão do universo.
Afinal era uma duvida cruel, seguir tentando vencer com seus sonhos, sempre julgado como algo bestial pelos homens que carregavam consigo doutorados.
Ou do nada, atirar a própria vida, como prova de crueldade insuportável dos humanos.
Talvez a necessidade de se sentir uma grande mártir.
Mesmo achando que possivelmente, ela nunca seria mártir de nada.
Mas era certo que nas horas em que a decepção a deixava em descanso, ela buscava a desvairada utopia, da sociedade de conceitos opostos, a que se apresenta perante sua face.
Seus atos, independente, de qualquer escritor, de qualquer ISMO, ou de qualquer organização.
Era apenas seus atos, solitários atos, tão valorizado por um único ser (ela própria). De mais, lhe sobrava a rotina, e a idéia da Anti-rotina, buscando sempre algo novo, conhecia lugares, nunca visto, e pessoas, que no fundo sempre escondia, algo que ela sempre detestava. sempre ela olhava com seu olhar áspero e notava a perdida juventude, fingida de louca ou não, em trajes de lobos ou de carneiros, mas seu conceito unilateral sempre uivava em declamar a insatisfação do ser.
Afinal era necessário dez minutos, para ela descartar a hipótese de ser teu companheiro, e isso, fazia fluir muito mais, esse seu jeito e pensamento de morta.
Morta perante sujeitos pseudo mortos,
Louca perante sujeitos pseudo loucos,
Revoltada perante sujeitos pseudo revoltados.

Ela andava pelo um velho ambiente, era uma biblioteca, dessas publicas, que servia de encontro de jovens, que liam, e que conversavam teorias, pensamentos, filosofias baratas.
E foi com seu passatempo tedioso de observar, que ela parou, e sentou num canto, que tinha tudo haver consigo mesma, afinal era um lugar bem solitário, excelente para observar, péssimo para ser observada, um lugar que até lembrava sua auto-destruição, afinal era um lugar pra lá de excluído, parecendo assim, um lugar onde nenhum daqueles jovenzinhos, tão moderno-arcaico , iria pisar.
Lá, sentou, e apesar da má iluminação leu alguns poemas, do livro de poesia que tinha acabado de pegar na biblioteca. Depois fechou o livro, e retornou a observar, os jovens que se entrosavam, ficou sempre a olhar, ler um poema, escrever algo contestando aquelas flores de plástico.
E no final da noite, quando se levantou, notou que tinha feito um amigo naquela noite, era aquela lugar, que respirava o ar que lhe cabia, que demostrava uma face de sincera união com o que ela ansiava.
Não demorou muito, e ela ia de novo passar na velha biblioteca, iria devolver o livro que tinha pego da vez anterior, iria aproveitar e pegar outro livro, depois tinha decidido voltar ao mesmo lugar que havia sentado, e foi naquele ambiente, que ela tornou a sentar, a observar, ficou a vontade, olhou os estereótipos mais absurdos, ia puxar seu caderno pra poder escrever algo, quando viu um papel amassado quase que ao seu lado, e curiosa era uma de suas qualidades, e apanhou o papel, e foi ao curioso ato de ler, era um poema, de letra pouco legível, mas de conteúdo muito bem legível para ela, era incrível, afinal ela até pensou em fazer um concurso, com o ser que escreveu o tal poema ali encontrado, no caso seria pra disputar quem tinha a visão mais pessimista, quem tinha a visão mais mordaz.
Até surgiu a curiosidade, de saber quem era o tal sujeito, e logo pensou,

- Será que ele esta ali no meio daquelas rodinhas de conversa?

Mas logo veio uma questão, será que ele sempre vem no mesmo lugar que agora estou? Ou será que passou aqui apenas por passar?
Afinal parecia que aquele lugar confiável havia lhe traído, e dado vez a outro qualquer, mas ela mesmo entrava em inúmeras contradição, afinal não seria tão qualquer, pois o sujeito que ali tinha escrito parecia não ser tão abominável, e talvez pelas ultimas esperanças no destino ela deixava um pouco de lado o pensamento tolo de auto exílio.
Depois de mais uma noite refletindo sobre a berrante interrogação, que era o ser jovem em geral, ela levantou-se e foi para casa normalmente.
Depois de certo tempo ela acabou criando uma rotina, sempre uma vez por semana, ela estava lá na biblioteca, e lá no seu cantinho, e sempre observando papeis pelo chão pra ver se achava mais um poema assinado pelo mesmo autor da outra.
E por algumas vezes ela tornou a achar poemas, escrito pelo mesmo garoto, que era uma grande interrogação em sua cabeça, afinal quem seria ele?
Até despertado desejo nela, o tal poeta já havia despertado. Era algo incrível afinal desabrochava sentimentos em quem tentava rete-los a todo custo.
Afinal ela sabia que o autor, era humano, e todos humanos eram de certa forma abominável para ela.
E os dias passavam e era cada vez mais complexo seu sentimento sobre tais poemas, sobre tal mistério.
Num dia qualquer, ela sentou no velho cantinho, e achou um poema de mesma autoria, e dedicado aquele cantinho que ela mesmo já se apoderava.
Logo achou o sujeito misterioso um desaforado afinal na carta de amor ao lugar não mais solitário, o tal poeta falava em ser o único a se relacionar realmente com aquele pequeno espaço desvalorizado pelos outros.
Mas no fundo ela mesmo sabia que era um sentimento maior que os unia, afinal eram ambos os loucos apaixonado por um lugar tão simplório.
Ela observou muito nessa noite, essa união de sentimentos e de coincidência.
Nessa noite, ela decidiu que era preciso fazer algo, para ao menos tentar saber quem era o tal poeta, de nada adiantou se não escrever numa folha de papel, uma nova carta de amor sobre o tal cantinho, como que numa resposta ao tal, e escrever noutra folha um poema com um pouco de sua indentidade, e sua forma pessimista anarquizada de observar tudo ao redor.
Depois de escrito, amassou o papel propositalmente e colocou no mesmo local que se encontrava os poemas deixado por ele.
Depois foi para casa, normalmente, e mais tranquila, afinal parecia que agora sim, ela tinha finalmente desabafado.
Uma semana depois, ela estava mais ansiosa do que nunca de ir, na biblioteca e de sentar no velho lugar de sempre.
E foi isso que ela fez no mais breve que pode, e chegando lá, foi logo catando o papel amassado, leu, e ficou encantada, era realmente a melancolia que ela mais necessitava e vivenciava, não perdeu tempo, e escreveu uma nova carta e poema para o já encantador poeta, ela até já falava da necessidade de o encontrar, de se conhecerem, de querer saber em que dia e horas, ele frequentava o lugar de sempre.
Ela estava realmente liberta de todo mal que lhe trazia a fúria radical que pré julgava todos seres.
Depois foi pra casa e logo notou que pela primeira vez na vida, surgia um fogo a queimando por dentro, era um vazio imenso, e logo acima, algo estava se completando, como numa ampulheta ao inverso, onde embaixo se esvaziava e acima se enchia, e o tempo agora demorava, a ânsia lhe corroía de forma angustiante, era uma mescla eufórica de alegria e tristeza, algo muito forte, ela já até admitia que estava apaixonada, era a primeira vez que esse sentimento lhe batia a porta.
E finalmente chegou o dia, que ela esperava como nunca, afinal ela esperava que o poeta misterioso aparecesse ou ao menos deixasse um recado marcando de se encontrar naquele mesmo cantinho.
Só que a surpresa, foi horrível, seu coração, agora era um misto de terremoto e vulcão em erupção.
Ela sentiu uma dor atroz, ela não acreditava no que acabava de ler, e releu com um nervosismo tremendo, mas estava lá, um poema falando dessa juventude perdida, uma carta de despedida para o velho cantinho repartido pelos dois durante meses, e uma carta de despedida para ela.
Na carta ele falava, que havia realmente chegado a sua hora, e que nenhuma coisa no mundo, lhe traria algum ânimo, nem mesmo a intromissão dela na sua vida, lhe traria realmente luz. Falava que a morte agora era única saída. Era de fato uma carta suicida.
Ela aos prantos não acreditava, afinal acabava ali por morrer numa despedida, um ser que ela ao menos pode conhecer pessoalmente.
Mas sem duvida ela sabia que o conhecia muito, afinal foi lendo, poemas e escritos pessoais, deixado de propósito ou não, jogado no chão, que ela percebeu que uma grande parte de si, estava naquele sujeito.
Nessa noite ela demorou ali, mas voltou pra casa, com a certeza que o poeta misterioso realmente havia se matado.
Ao chegar em casa transtornada, sua mãe lhe deu a notícia de que um vizinho (que morava no prédio ao lado) que ela já havia desprezado pelos tantos pré julgamentos , acabava de se matar, deixando um poema sobre a juventude perdida na frente do prédio que morava.

AUTOR: Glauber Albuquerque - logro@ig.com.br